Judith Butler

Considerada uma das principais filósofas em atividade, a pensadora pós-estruturalista foi transformada em alvo de grupos judeus ao declarar, em palestra, que Hamas e Hizbolah fazem parte da esquerda global contra o imperialismo e hoje é considerada persona non grata pelo governo de Israel

Por Marcelo Hailer*

(…) Quando um conjunto de judeus rotula outro conjunto de judeus de “antissemita”, eles estão a tentar monopolizar o direito de falar em nome dos judeus. Assim, a alegação de antissemitismo é de fato um disfarce para uma disputa intra-judaica (…)

A frase acima foi dita pela filósofa Judith Butler que, desde 2012, quando foi homenageada pela cidade de Frankfurt que concedeu à teórica crítica o prêmio Theodor W. Adorno, tornou-se um dos principais alvos de grupos judeus que promovem o lobby contra grupos e pessoas que ousam criticar o Estado e o governo bélicos de Israel.

A questão com Butler envolve três pontos. Ela é ativista do movimento Boycott, Divestment and Sanctions (BDS – Boicote, Desinvestimento e Sanções), que defende medidas não punitivas contra o Estado israelense, e em palestra proferida em 2011, afirmou “entender o Hamas e o Hizbollah como movimentos sociais que são progressistas, de esquerda, parte da esquerda global, extremamente importantes” (porém, sempre deixou claro que não apoia ações armadas). Por fim, a professora é lésbica assumida, principal teórica dos estudos queer e defensora de movimentos LGBT. Ou seja, torna-se assim um alvo fácil dos grupos de judeus sionistas que tacham de “antissemitas” todos aqueles que criticam as ações armadas do governo de Israel.

Os ataques mais duros contra Judith Butler vieram de Gerald Steinberg, docente de Ciência Política na Universidade Bar-Ilan, em Ramat Gan, que deplorou da filósofa por apoiar a campanha BDS, que, na visão de Steinberg, trata-se de uma “acepção moderna do antissemitismo”. Para o professor, “Butler é uma de um ínfimo número de ‘judeus de álibi’, usados para legitimar a guerra continuada contra Israel, seguindo uma obscura prática empregada durante séculos na diáspora”. Quem também não poupou Butler foi o secretário-geral do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, que declarou ser “deplorável premiar alguém que notoriamente odeia Israel” e que tal fato “não pode ser considerado apenas um equívoco”.

Porém, antes de avançarmos nesta questão é necessário entender o contexto de Judith Butler e de sua obra.

Self-hating

Judith Butler, judia-americana com ascendência russa-húngara, é professora de Retórica e Literatura Comparada na Universidade de Berkeley, Califórnia, e ganhou notoriedade mundial com os seus dois primeiros livros: Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade (1990) e Desfazendo o Gênero (2004), ambas consideradas fundamentais dos chamados Estudos Queer (Queer Theory). Mas, para além disso, as obras de Butler abrem um novo ciclo na teoria-crítica feminista, pois, além de questionar as identidades (sexuais e de gênero) como fixas, ela faz uma leitura inovadora da Teoria da Performatividade de J. L. Austin.

Para Butler, é o discurso que vai designar quem são os sujeitos, ou seja, “verdades” ditas sobre os sujeitos que o desenham perante a sociedade. Por exemplo, quando alguém é chamado de “antissemita”, um universo surge e torna-se verdade. Uma vez dita tal verdade, é praticamente impossível desconstruir tal discurso. Esse ato de fala se dá também com a questão de gênero. Ninguém nasce dentro de um gênero, é o discurso que aloja o corpo dentro de uma ideologia em torno do conceito de gênero. Assim como há, também, um discurso socialmente pronto em torno do judeu. O discurso performativo funciona como um dispositivo político-social que encerra o sujeito no rótulo.

Se em um primeiro momento a obra de Butler vai tratar dos corpos e dos discursos performativos em torno do gênero e da difamação enquanto violência simbólico-social e que, como pontua a própria filósofa, muitas vezes podem acarretar violência material, as suas obras mais recentes dão um passo adiante e passam a tratar dos corpos nos conflitos de guerra. Vidas Precárias (2006), Marcos de Guerra (2009) e mais recentemente Caminhos Partidos: judaísmo e a crítica ao sionismo (2013).

Em Caminhos Partidos, Butler tece críticas ao sionismo político e suas “práticas de violência ilegítima do Estado israelense” e a filósofa não trata apenas da violência de guerra, mas de um “racismo patrocinado pelo Estado de Israel”. De acordo com a autora, todos aqueles que criticam as ações armadas do governo israelense são transformados automaticamente em antissemitas e praticantes do self-hating (ódio contra si próprio).

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A demonização

Entre outras coisa, Judith Butler é acusada de ser “colaboradora nazi”, ao que ela responde que, por ser de uma família que foi “dizimada” por nazistas, receber tais injúrias é algo “doloroso”. “É claro para mim que as paixões, que correm tão intensamente sobre estas questões são aquelas que tornam o falar e o ouvir difíceis. Algumas palavras são retiradas do seu contexto, o seu significado é distorcido e chegam mesmo a se tornar rótulos, ou até a estigmatizar um indivíduo. Isto acontece a muitas pessoas quando oferecem uma visão critica de Israel — elas são rotuladas de antissemitas ou até de colaboradoras nazis; estas formas de acusação pretendem estabelecer as formas mais duradouras e tóxicas de estigmatização e demonização”.

Em sua carta-resposta, Judith Butler chama a atenção para o fato de ser rotulada de “judia que odeia a si mesma”. “(…) É o insulto e a injúria mais dolorosa ser chamado de cúmplice ao ódio pelos judeus ou de ser tomado como aquele que odeia a si mesmo. É ainda mais difícil de suportar a dor de tal alegação quando se procura afirmar o que é de mais valioso no judaísmo para se pensar sobre a ética contemporânea, incluindo as relações éticas para com aqueles que foram desprovidos de terras e do direito a sua autodeterminação, para com aqueles que procuram manter viva a memória da sua opressão, para com aqueles que procuram viver uma vida que será, e deverá ser, digna de ser lamentada.”

“Eu defendo que todos estes valores derivam de importantes origens judaicas, o que não é o mesmo que dizer que eles apenas derivam dessas origens. Mas, para mim, dada a história da qual eu venho, é mais importante, enquanto judia, falar publicamente contra a injustiça e lutar contra todas as formas de racismo. Isto não faz de mim uma judia que odeia a si mesma. Isto faz de mim alguém que quer reivindicar um judaísmo que não se identifica com um estado de violência, mas sim com uma luta de base ampla por justiça social”.

Sobre suas declarações a respeito do Hamas e do Hezbollah, a professora da Universidade de Berkeley afirma que a sua fala foi retirada de contexto. “Fui sempre a favor de uma ação política não-violenta e este princípio tem caracterizado constantemente as minhas opiniões. Foi-me questionado por um membro de uma audiência acadêmica, há alguns anos atrás, se eu considerava que o Hamas e o Hezbollah pertenciam à ‘esquerda global’ e eu respondi com dois pontos. O primeiro ponto era meramente descritivo: essas organizações políticas definem-se a si mesmas enquanto anti-imperialistas, e anti-imperialismo é uma característica da esquerda global, portanto, tendo isso por base, poder-se-ia descrevê-los enquanto parte da esquerda global. O meu segundo ponto era, então, crítico: tal como para qualquer outro grupo de esquerda, tem de decidir-se se se é a favor ou contra esse grupo, e tem de avaliar-se criticamente essa posição. Não aceito nem apoio todos os grupos da esquerda mundial”, analisa Butler.

Por fim, Butler explica por que apoia o BDS e que seu ativismo político é pelo fim do conflito entre a Palestina e Israel. “A razão pela qual aprovo BDS, e não o Hamas e o Hizbollah, é que o BDS é o maior movimento político não violento que procura estabelecer a igualdade de direitos e de livre escolha para os palestinos. Na minha opinião, as pessoas destas terras, Palestina e Israel, têm de encontrar um modo de viver juntas sob a condição de igualdade. Como tantos outros, eu coloco-me do lado de uma verdadeira democratização política nessas terras e reafirmo os princípios da autodeterminação e da coabitação para ambos os povos, e claro, para todas as pessoas. É meu desejo, como é o desejo de um número crescente de judeus e não judeus, que a ocupação chegue ao fim, que a violência de qualquer gênero termine e que os direitos políticos principais de todas as pessoas nesta terra sejam assegurados através de uma nova estrutura política”.

A perseguição não acabou…

No início deste ano, Judith Butler daria uma palestra sobre o escritor Franz Kafka no Museu Judaico de Nova York, porém, assim que o evento foi divulgado, os mesmos grupos que protestaram contra a premiação de Butler fizeram pressão para que ela fosse banida do evento sobre Kafka. Os argumentos utilizados foram os mesmos: de que ela é antissemita, crítica ao Estado de Israel e que a prova disso é o seu apoio a campanha Boicote, Desinvestimento e Sanções.

Após pressão, Butler cancelou a sua participação no evento e evitou comentar o assunto. Em comunicado, o Museu Judaico de Nova York lamentou o cancelamento, mas revelou que ele se deu “após forte pressão de partidários de Israel. O convite do Museu à professora gerou controvérsias por conta de suas posições políticas críticas ao Estado de Israel que possuem grande visibilidade. Apesar de suas opiniões políticas não terem sido fator de convite, os seus posicionamentos políticos tornaram-se uma distração que inviabilizou a sua palestra sobre Kafka”.

O mais irônico de toda essa história é que Judith Butler tornou-se vítima de sua própria teoria, a da performance discursiva. Por mais que ela explique os seus posicionamentos aos quatro cantos do mundo, a pecha de filósofa antissemita, infelizmente, funcionou em vários setores do mundo. Este fato só evidencia o tamanho do poder de articulação do governo de Israel ao redor do mundo e por que tantas potências se dobram ao lobby israelense.

Butler, por conta de seu ativismo político pró-palestina e contrário ao governo de Israel, conta com uma rede de apoio mundial, mas é fato que, após ser considerada persona non grata pelo governo de Israel, a porta do Museu Judeu de Nova York não será a última que se fechará a esta grande, se não principal, pensadora da contemporaneidade.

* Fonte: http://revistaforum.com.br/digital/160/judith-butler-eu-reivindico-um-judaismo-nao-associado-violencia-estado/

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