O Golpe em curso

pau-de-araraFico me perguntando sobre a (in)coerência dos que querem na marra o impeachment. Digo na marra porque temos um movimento de diferentes atores sociais que buscam incessantemente motivos para justificar o impedimento de um mandato popular. A presidenta não é ré em nenhum processo. Repetindo: não é ré em nenhum processo, nada há que justifique um pedido de afastamento nos termos constitucionais. Contrariando o desejo das urnas em 2014, querem desconsiderar o resultado das eleições democráticas e gritar que o poder está vago. Fraudam a vontade popular diuturnamente afirmando que “todos” querem que a Dilma saia. O resumo da ópera é o que chamamos de golpe (para quem desconhece o termo“golpe” diz o dicionário: Ação de uma autoridade que viola as formas constitucionais; conquista do poder político por meios ilegais).

Mas quem são os protagonistas deste movimento?

Políticos mau perdedores. Refiro-me aos da chamada oposição que não se conformam com a quarta vitória seguida das bandeiras de esquerda na disputa pelo cargo maior do executivo. O PSDB, parte do PMDB, DEM, REDE, PSC e todos os demais partidos nanicos de aluguel querem uma segunda chamada antecipada para as eleições que perderam. Eleições de quatro em quatro anos só quando estão no poder. Réus em uma infinidade de processos nas diferentes instâncias, querem se apresentar como os defensores dos valores e do estado de direito, mas são apenas usurpadores do poder e sangram a república em favor de seus interesses. Fisiológicos do poder sem projeto.

Moro “Luiz XIV de Curitiba”. Quem não se lembra, Luiz XIV foi Rei Absolutista da França no séc. XVII e afirmou, sem falsa modéstia ou culpa, “L’État c’est moi” – O Estado sou eu. O Moro quer refundar a república e não tem o menor escrúpulo na seletividade. Já disse que seus atos ilegais vão gerar jurisprudência. Maquiavel teria inveja e se sentiria acanhado diante deste príncipe;

Judiciário. Arautos da ética se colocam acima de qualquer regulamentação constitucional e teimam em demonstrar de maneira falaciosa que são ilibados. Intencionalmente extraem – de forma desavergonhada e sem o menor escrúpulo – do ordenamento jurídico o que convêm a eles e aos que representam de forma velada e propalam que “está na lei”. Poderia citar nomes expressivos como Joaquim Barbosa – foi ele quem chocou os ovos da serpente -, Gilmar Mendes, Itagiba, Constantin, Janot e outros tantos, mas o modus operandi é sempre o mesmo, distorcem o estado de direito em favor da ilegitimidade de seus atos, capitalizam seu intento a curto prazo e são desmascarados historicamente;

Imprensa Golpista. Manipuladores do real por excelência usurpam a concessão pública em favor do privado. Destroem lideranças, movimentos e conquistas sociais que afrontam os privilégios da Casa Grande. Exigem a liberdade de imprensa para si, mas censuram a porção do real que não lhes convêm. Disseminam o falso em tal intensidade que este começa a parecer o verdadeiro. Desqualificam a imprensa paralela que não pode, segundo aqueles, ousar informar a população. Constituem um aperfeiçoamento da propaganda nazista e gozam das prerrogativas da liberdade sem limites de expressão.

Casa Grande. Dissemina o ódio contra as camadas populares. Não tolera a alteridade e nem a menor possibilidade de mudança da distribuição de rendas. Gosta do direito quando este é garantidor de privilégios, jamais quando se transforma em promotor de igualdades ou diminuição de diferenças. Tem a seu serviço e conta a seu favor: a banda podre de grande parte do judiciário; os grupos violentos e autoritários; uma imprensa viciada; os fundamentalistas que não toleram o diálogo e querem impor sua vontade pela força; o uso ilimitado de recursos para manter e aprofundar o abismo das desigualdades sociais.

Fundamentalismo Religioso. Grupo em franca acensão que quer sujeitar o estado e seu ordenamento legal aos princípios e dogmas de sua crença. Embasados em textos que consideram sagrados e revelações ditas divinas, se prestam a discriminar sistematicamente as minorias, mulheres, negros, homoafetivos, e toda a sociedade – que não se confunde com eles e por isto, pecadora – que diverge deles. Sempre invocam o princípio da liberdade de confissão religiosa, mas não toleram quem possa confessar diferente e acusam o estado laico de intolerância. Arruínam o tecido social com prejulgamentos e demonização dos que não pertencem ao seleto grupo dos eleitos que são eles próprios. Capitaneiam o retrocesso das conquistas sociais.

Fascistas. Sempre localizados nos espaços obscuros do tecido social aparecem nos momentos de crise para gerar mais instabilidade e impor, mediante a força, seu projeto de sociedade. A violência sempre é justificada pela necessidade da aniquilação do outro, o diferente, o que não faz parte do mesmo. O todo é sempre verdadeiro, mas nunca é ético. Estão presentes de forma velada nos diferentes espaços das organizações e esferas sociais e não exitam no uso da truculência para garantir o que chamam de democracia(?) e ordem social. Sócios do estado policialesco, tem a violência como fundamento do social.

É neste cenário que temos os embates atuais. Não basta apenas chamar para o diálogo – pois dialogar pressupõe abertura, respeito a alteridade, eticidade. Boa parte dos atores sociais não querem confrontar posições, abrir mão de sua interpretação de mundo, ou assumir o que almejam para o futuro. É preciso mobilizar um maior número de cidadãos e instituições para que as conquistas sociais sejam preservadas, os direitos garantidos e ampliados, e a diversidade possa se manifestar com todo o seu potencial criador.

Apenas o silêncio é vergonha!

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